Uma das alternativas que temos é a nossa mitocôndria. Ela é a estrutura da célula responsável por produzir energia, e tem uma grande peculiaridade. Ela vem de uma linhagem de bactérias que passou a viver nas células e possui DNA próprio. Melhor ainda, nossas mitocôndrias são sempre passadas pela mãe, através do óvulo, nunca pelo espermatozóide. Com isso, ao estudarmos o DNA da mitocôndria, estamos vendo a história da linhagem feminina humana, sem recombinações para atrapalhar.
A outra alternativa conta a história dos homens. Nosso sexo é determinado por um par de cromossomos. Se o par é igual, XX, temos uma mulher. Se for diferente, XY, temos um homem. Portanto, se estudamos o DNA do cromossomo Y, que não tem par para se recombinar e só está presente nos homens, contamos a história masculina.
Pois bem, um estudo dos cromossomos Y na Ásia descobriu algo aberrante. Um alelo em especial chamou a atenção dos pesquisadores (alelos são variantes de um gene, como a variante do receptor de melanina das ruivinhas). Esse alelo estava presente em pelo menos 16 populações diferentes, em uma área que abrange grande parte da Ásia e um tanto do Pacífico. Extrapolando o número encontrado, 8% dos asiáticos contém esse alelo, num total de 16 milhões de homens, mais ou menos 0,5% da população mundial (na época do estudo, 2003). Comparando as diferenças e semelhanças entre as sequências desse alelo, podemos estimar o período em que ele entrou na população, seu ancestral comum mais recente.

Mapa da Ásia.
Uma frequência tão grande de um alelo indica algum evento muito sério relacionado com sua entrada ou o seu valor para os portadores. Seja qual for aquele ancestral comum mais recente, deve ter sido algo importante, dificilmente um alelo seria tão comum por acaso. E foi. O ancestral estimado ocorreu mais ou menos 1000 anos atrás. 1000 anos atrás, um evento que ocorreu na Ásia toda, algo que pode ter dado origem a 8% da população da região… Gengis Khan.
Isso mesmo, Gengis Khan (1167-1227 d.C.) e seus parentes (filhos e irmãos) dominaram a Ásia cerca de 1000 anos atrás, e você pode imaginar o tamanho do harém que eles tiveram por onde passaram. Eles tiveram um sucesso reprodutivo tão grande que deixaram sua marca em 0,5% da população mundial! [3] A política de escravizar e estuprar as mulheres, além de matar os homens conquistados, parece ter funcionado muito bem.
Legenda da imagem: O império de Gengis Khan em rosa. Os gráficos de pizza representam a frequência do alelo do cromossomo Y (em azul) que ele deve ter introduzido (literalmente) na população. Repare como eles se sobrepõe. E os Hazara? Bom, os Hazara têm uma tradição oral passada através das gerações, de que são uma linhagem de homens descendentes diretos de Gengis Khan. Parece que não estão errados.
Claro que algo dessa magnitude não deve ocorrer novamente, mas pequenas diferenças no sucesso reprodutivo de machos que conquistam mais fêmeas e têm mais filhos permitem a eles passar mais genes adiante.
Fontes:
[1] Westneat, D., & Stewart, I. (2003). Extra-pair Paternity in Birds: Causes, Correlates, and Conflict Annual Review of Ecology, Evolution, and Systematics, 34 (1), 365-396 DOI: 10.1146/annurev.ecolsys.34.011802.132439
[2] Gibbs, H., Weatherhead, P., Boag, P., White, B., Tabak, L., & Hoysak, D. (1990). Realized Reproductive Success of Polygynous Red-Winged Blackbirds Revealed by DNA Markers Science, 250 (4986), 1394-1397 DOI: 10.1126/science.250.4986.1394
[3] Zerjal, T. (2003). The Genetic Legacy of the Mongols The American Journal of Human Genetics, 72 (3), 717-721 DOI: 10.1086/367774

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